Tudo bem. Por que não estaria? O
mundo não está nevando ou sofrendo algum tipo de colisão com o sol, então tudo
bem. Estou viva, ligeiramente saudável, a cabeça está funcionando bem e ainda
penso racionalmente, por assim dizer. O tempo anda um tanto confuso para mim,
abro os olhos às dez, mas acordo às onze. Não vejo as horas passando até que o
compromisso chegue e estou novamente atrasada.
Confesso que minha tristeza não
tem motivo aparente, fico calada por horas sem que sinta necessidade de estar
ao lado de alguém ou ter alguém para acabar com esse silêncio. É como se parte
de mim fosse completada pelo vago de um nada, e assim me fizesse por
satisfeita. A minha carência de palavras já me afeta, consigo um parágrafo
quando no máximo; dias atrás, lendo um livro de crônicas, a autora me disse
indireta que estava tudo bem. As coisas não precisavam seguir um ciclo de
consequências certas em momentos certos para abastar nosso egoísmo, meu
egoísmo. Se nosso não seria egoísmo, falando nisso... Alguém está feliz hoje,
seria egoísmo ficar feliz por ela ou seria egoísmo ficar feliz com a felicidade
alheia?
Sociedade complicada essa... Se
guardo aquele livro da minha autora consagrada, é egoísmo porque não
compartilhei. Melhor apertar esc e
fechar todas essas páginas, abrir um novo documento e fazer minha própria
história, onde amar alguém e desejar essa pessoa só para si não seja algo em
que eu vá ser julgada ou tachada. Amar sem escrúpulos,
rasgando o peito para ver o sangue escorrer num drama de televisão, um romance
de gritos e paixão sem vencimento.
Talvez, por fim, eu esteja
precisando de algo ou a procura de algo. Já são onze da manhã e o quarto ainda
está escuro. Mais um dia de inferno pessoal, presumindo que a rotina não me
levará a lugar algum a não ser que para o mesmo de sempre.
O Back to Jazz desabrochou sob o relento da escassa criatividade da mórbida donzela de sardas avermelhadas, que vivia a se queixar da ausência eloquente das palavras. Érica, como num conto, decidira aquinhoar seu mal expelindo bobeiras com mãos a calejar no cubículo de sua estante.