Foram meses de agonia. Uma terceira pessoa se encaixou na minha rotina enquanto eu assistia tudo no plano de fundo, dói dizer que aquele terceiro não passava de uma patologia silenciosa e avassaladora, e, sem pestanejar ou sequer perceber, era eu a telespectadora do meu próprio fim.
O vilão não passava de uma confusão interna de sentimentos que se externavam na ação do seu julgamento intrÃnseco, enquanto a perspicácia ilustrada pelo mocinho refletia apenas um romance de pobre interpretação. Quando julgados, um era o vilão e o outro o mocinho, mas, no princÃpio, compartilhavam a mesma cruz: eram humanos. Em algum momento da trajetória a mudança fez-se perceber, pouco mais importava a postura duvidosa do mocinho, e a personalidade vil e incompreendida do vilão era agora tolerada.
Não me lembro de Angelina Jolie ser tão estonteante antes de Brad, talvez eu nem me lembre de Brad sem Angelina. Acontece que essas pequenas epifanias diárias nos permitem pensar na história como uma colega de truques baratos, sempre escondendo os detalhes mÃnimos e não-tão-importantes do tempo. Como por exemplo a diferença de ter um amor de dez anos ou um de dois anos. Você provavelmente experimentou as mesmas brigas e os mesmos ciúmes, soube que estava gorda demais, e mesmo assim resolveu acreditar nele, pois mesmo ciente de que mil outras mulheres mais bonitas e esbeltas passariam rotineiramente por seu trabalho, ele estaria lá... Comendo sua janta mal temperada e elogiando suas curvas.
O tempo passou rápido, tanta coisa acontecendo aos máximos e mÃnimos que nem pude perceber sua presença quando esteve de frente a mim. Me apaixonei no momento errado, cuidando excessivamente das palavras para que não revelasse a todos e a mim mesma que era você. Me apaixonei, e então o que mais tinha a fazer senão me esconder atrás de outro? Toda aquela disritmia de sentimentos transparente a quem quisesse colocar a mão na ferida.
Engraçado como tudo de ruim nos volta contra, e todas as coisas boas conseguem desaparecer num espaço de tempo curto demais para que eu assimile a ausência das conversas noturnas sobre assuntos descartáveis, seu carinho quente e o frio súbito na barriga ao te ver. Caso eu não soubesse que todas as minhas palavras doÃdas são dramas deixados por uma falta sua, seria capaz de te deixar de lado ou atrás, seguir em frente e respirar novamente sozinha. Mas estamos falando de tempo, e eu me apaixonei. Estou aqui e te espero.
Os dias foram passando, assim como os anos. Nós continuávamos naquele vai e
vem, sem saber onde ficar. Estava feliz, apesar do pesares... Mas feliz com a
minha vida, não com a nossa. Feliz porque tudo parecia estar dando certo, fui
promovida no trabalho, meu livro está quase pronto e nos últimos dias o batom
vermelho parecia estar realçando mais a minha pele branca. Você estava o mesmo
de sempre, segurando a minha mão como se tudo estivesse bem e discutindo a
beleza da sua secretária com seus amigos. Mesmo quando tudo que eu tenha pedido
fora o mÃnimo de respeito por mim.
Cansei. Cansei de usar
rasteirinhas e esmalte nude, finalmente a coragem de calçar aquele salto do
escuro do closet chegou, colocar azul nas unhas e sair por aà desbravando as
ruas dessa cidade pacata com duas ou três amigas ao lado, mostrar que minhas
curvas ainda podem ser desejadas por outros olhos. Você se esqueceu delas aos
poucos. Me tem na cama e não mais em qualquer cômodo da casa, e quando invento
de vestir a última lingerie que comprei você me olha e deita, desculpando
cansaço.
Estive pensando em nós dois,
tentando trazer algo que pudesse me fazer lembrar das coisas terrÃveis pelas
quais passamos. Mas só mais um pretexto para a inspiração chegar, essa falta
que vive presente e me deixa encarando o teclado e uma página em branco.
Desisti depois de algumas semanas, não foi algo planejado, o meu objetivo era
me sentar todos os dias e tentar, ficar recordando as vezes em que me deixou
plantada te esperando ou quando a sua ex beijou seu rosto enquanto estava ao
seu lado. Hoje está tudo bem, confesso... Aprendemos a amar ou pelo menos nos
esforçamos, acontece que minhas estórias sempre foram melancólicas, e essa era
uma necessidade minha.
Era, realmente. Era porque eu não
tinha você, estava só e a solidão era o meu único assunto. Talvez eu tenha me
acostumado a falar sobre a infelicidade, e, nas vezes em que você era um idiota,
eu me lembrava e escrevia novamente sobre sentimentos passageiros, mas que
permaneciam inertes num pequeno pedaço de memória que se recusava em me deixar.
Você sabia como tirá-la de mim, e, às vezes, se dá ao trabalho de me mandar
calar a boca e esquecer tudo que um dia não foi nosso.
Já estou perdida em meio termos
outra vez, pretendia falar sobre o cotidiano já que ele não me deixava, e então
você apareceu nessa bagunça de pensamentos e ideias que só eu mesma pra ter.
Passa da meia noite, quase uma da manhã, com essa rotina de estudos não ando
dormindo muito bem e o sono acaba me levando com pressa. Vou me despedindo
então, nem sei se essa poderia ser considerada uma carta, mas dentre os fatos
do dia a dia tive razão em citar você, uma novidade que está sempre presente.
E mesmo assim,
na maioria das vezes, não funciona.
Tranquei.
Tranquei todas as portas, fechei tudo que podia... A porta da frente, a porta
do quarto, a cabeça, o coração. E você entrou sem quebrar nenhuma fechadura,
foi adentrando cada passagem com a chave que só você tinha, da minha eu já nem
sabia mais. Fiz questão em sumir e esquecer, deixar de pegar e fazer daquilo um
vÃcio de guarda, escondendo de tudo e todos. E agora estamos aqui, você podendo
abrir todas as portas e eu sem poder fechá-las.
Era
segunda-feira, seis ou sete horas da noite. HavÃamos passado todo o final de
semana juntos num acampamento, e tudo que trocamos foram alguns cumprimentos.
Quase um ano depois você vem me dizer que não pôde deixar de notar minha
presença, eu estava lá quieta e tÃmida, e hoje ri contando como me achava boba
e bonita. Você virou para trás com alguns de seus amigos ao lado, a luz
refletia olhos azuis quase verdes, e então disse “oi” oferecendo a mão. Como
sempre estava concentrada em algo mais, não na cor dos seus olhos ou em como
você ficava bem naquela roupa, talvez estivesse pensando no último livro que li
ou na próxima estória a escrever. Mas te tratei como empecilho.
De que adiantou?
Bastou uma semana e estávamos naquele mesmo lugar, você encostado na parede
encanecida, e minha cabeça em seu ombro. Passamos parte da vida acreditando que
no namoro vamos fazer diferente, ter tempo para os amigos, não colocar a pessoa
sobre um altar de ouro e venerá-la, não fazer regimes loucos para poder usar
aquele vestido, não deixar o namorado jogar na sua presença, obriga-lo a ver
filmes de romance e esconder todas as fotos da sua infância para que sua mãe
não as mostre. Acontece que as coisas seguem a dois, você fala “nós” e ele
“vamos”.
Talvez, por fim, eu esteja
precisando de algo ou a procura de algo. Já são onze da manhã e o quarto ainda
está escuro. Mais um dia de inferno pessoal, presumindo que a rotina não me
levará a lugar algum a não ser que para o mesmo de sempre.
Esse seu jeito incômodo de dizer
que gosta de mim e está disposto a segurar a minha mão traz de volta a batalha
interna entre amor e desespero. Meu amor e o seu desespero. Não venha
justificar nenhum acaso, desespero sim! E não por mim, por si mesmo. Sem saber
onde se encontrar, você tenta me engolir aos poucos, como se eu fosse aquela
peça do seu quebra-cabeça que esteve faltando desde seus quinze anos, quando
você havia encontrado a peça original e rejeitado por acreditar que o resultado
ficaria feio olhando de longe.
Sua figura havia sido implacável
em certos parques da cidade, principalmente naquela pequena praça sem sombra e
ao meio dia em que havÃamos compartilhado carÃcias a suar ainda mais calorias.
Mas, não se engane, eu escrevo esse texto esquecendo. Não me esquecendo de você
ou dos vários momentos em que acreditei que me amava sem que me dissesse as
três palavras, não... Eu apenas me esqueço de que preciso lembrar todos os dias
que você não está presente ou que sinto a fagulha de um amor que ainda
sofre de esperanças.
Você pediu e eu deixei, ou não
tive escolha senão dizer “vá”.
As lágrimas haviam cessado após
um dia e uma noite de choro constante, os olhos ainda marcados vagavam sem que
vissem um só enfeite do quarto, apenas olhando as lembranças que ainda jorravam
na minha frente, essas não haviam parado por um só instante. ContÃnuas e
doridas. Havia tentado ouvir Pouca Vogal e Esteban, mas tudo parecia estar
conjunto com o que sofria, e calada fechava o notebook implorando por silêncio
ou que o silêncio gritasse.
Você brincava com meus dedos
naquela noite quente de sábado, encaixava sua mão na minha como quem faz
promessas em silêncio, abraçava-as quieta, aceitando todo e qualquer toque
singelo da sua alma sobre mim. Eram tempos de dúvidas, mas não podia negar
todos os meus sentimentos expostos a você naquele quarto escuro, minha
respiração baixa cheia de temores e suspeitas, mal me movimentava em seus
braços – receava que pudesse arruinar a calmaria de estar com você junto ao
silêncio.
Uma certeza, talvez a única que
podia ter naqueles tempos. O amor. Nem mesmo a morte era uma para mim, apenas
um substantivo ou adjetivo? Sabe-se lá.
O ar condicionado soava bem à s
duas da manhã, fechar todas as janelas e jogar o cobertor por cima para enganar
a mente, a teimosia constante dos pensamentos que enlouquecem sem que eu saiba,
sem que eu me importe com a explosão e a deficiência na fala. O caos incomoda
nesses dias, o calor parece aumentar pelas horas que se passam, horas que se
arrastam, desprezam a ideia de ter pressa com a vida. Pressa de viver.
Joguei o cobertor de lado quando
a terceira gota de suor escorreu pela minha face, tentei obrigar o sono a
chegar, mas a testa franzida ostentava a minha preocupação. Aquela ansiedade
por mudanças e as tentativas falhas em consegui-las me faziam abraçar o
travesseiro junto ao peito, apertar o lençol como quem quer rasgá-lo e demandar
que eu tenha poder sobre o meu corpo.Sobre o que eu sinto. E não que eu esteja
sob o domÃnio de um simples querer, esperar em toda paixão que a mentira não me
iluda e que a verdade não desacredite de mim.
A foto rasgada caÃa sobre o chão
com o peso de um amor, exibindo dores que rugiam na promessa de serem
passageiras. Duas bocas se cruzavam no fragmento distorcido no canto mais
longÃnquo do quarto, o único pedaço de papel que não se rasgara por completo na
fúria de duas mãos e um ciclo: ira, tristeza e decepção.
Corria todas as manhãs, quando
chegava ao apartamento esperava o porteiro dizer que você passou por lá, por
muito tempo não consegui notar a aflição nos olhos quando ele me balançava a
cabeça por já estar cansado das más notÃcias, ou das minhas más considerações.
O celular, sem chamadas ou mensagens, desligava quando não tinha uso. O seu silêncio me agredia. E,
principalmente, a facilidade com que se esqueceu de tudo que ainda me fazia
bem, a sua liberdade em deixar que padecesse a nossa história.
“Indo.”
A vida seguiu após algum tempo. O
tempo não parou pra que eu abrisse a porta. Talvez alguns meses ou um ano, mas
o tempo não foi perdido, uma vida foi recuperada. Duas bocas se cruzavam no fragmento distorcido no canto mais longÃnquo
do quarto, o único pedaço de papel que não se rasgara por completo na fúria de
duas mãos e um ciclo: ira, tristeza, decepção e ressurgimento. “Em frente.”
O Back to Jazz desabrochou sob o relento da escassa criatividade da mórbida donzela de sardas avermelhadas, que vivia a se queixar da ausência eloquente das palavras. Érica, como num conto, decidira aquinhoar seu mal expelindo bobeiras com mãos a calejar no cubÃculo de sua estante.