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Você me faltou a memória e por fim: respirei. 

Foram meses de agonia. Uma terceira pessoa se encaixou na minha rotina enquanto eu assistia tudo no plano de fundo, dói dizer que aquele terceiro não passava de uma patologia silenciosa e avassaladora, e, sem pestanejar ou sequer perceber, era eu a telespectadora do meu próprio fim. 

Vários personagens surgiram durante o caminho: o mocinho, a melhor amiga, o professor favorito e, no clímax da história, o vilão. É da natureza humana o julgamento, e cada um é juiz daquilo que pensa sobre si e sobre os outros, o erro está na ação, no que você está disposto a fazer em razão da sua convicção. Porém, mais ainda que o julgamento, a mudança é do ser humano; e essas são duas coisas que relacionadas, correntemente, não possuem um relacionamento saudável. Eu estava sujeita ao julgamento, assim como à mudança. 

O vilão não passava de uma confusão interna de sentimentos que se externavam na ação do seu julgamento intrínseco, enquanto a perspicácia ilustrada pelo mocinho refletia apenas um romance de pobre interpretação. Quando julgados, um era o vilão e o outro o mocinho, mas, no princípio, compartilhavam a mesma cruz: eram humanos. Em algum momento da trajetória a mudança fez-se perceber, pouco mais importava a postura duvidosa do mocinho, e a personalidade vil e incompreendida do vilão era agora tolerada. 

A gente fica mordido ao, enfim, notar que na vida nada dura frente ao infinito. Não existe escolha entre mudar ou permanecer imutável, cada pedaço do dia é uma chuva de pedras, e nem todos nós somos treinados a desviar. Por fim, o erro está na ação: sentar e assistir em terceira pessoa os dias passando ou levantar, colher as pedras e buscar saber por que elas miram em você? 
Tenho uma mania absurda de nos comparar a casais célebres, e hoje, passando pelo feed de uma dessas redes sociais, vi uma foto de Gregório Duvivier e Clarice Falcão. Ambos admiramos a relação de conexão que o par aparentava ter, ele um humorista e ela uma cantora, profissões tão distintas e simultaneamente tão precisas na condição de se ter um pouco das duas. Não fui pega por nenhum estado de crise filosófica, simplesmente imaginei aquela foto vazia, sem os dois para preenchê-la. Quantas pessoas Gregório fez chorar até que a garota de seus sonhos daquele momento o fizesse rir para a vida? Ou quantas pessoas Clarice empurrou para debaixo do tapete antes de encontrar o cara certo para o qual dedicaria suas músicas?

Não me lembro de Angelina Jolie ser tão estonteante antes de Brad, talvez eu nem me lembre de Brad sem Angelina. Acontece que essas pequenas epifanias diárias nos permitem pensar na história como uma colega de truques baratos, sempre escondendo os detalhes mínimos e não-tão-importantes do tempo. Como por exemplo a diferença de ter um amor de dez anos ou um de dois anos. Você provavelmente experimentou as mesmas brigas e os mesmos ciúmes, soube que estava gorda demais, e mesmo assim resolveu acreditar nele, pois mesmo ciente de que mil outras mulheres mais bonitas e esbeltas passariam rotineiramente por seu trabalho, ele estaria lá... Comendo sua janta mal temperada e elogiando suas curvas.

Costumo pensar no amor como uma consciência de sentimentos nobres, consciência essa que se esvai nos momentos difíceis onde o controle não é uma opção, e o que nos resta? Sentimentos nobres. Na história do mundo, durante o período monarca, não me recordo de bons contos sobre a nobreza... E isso como adjetivo de sentimentos só poderia causar problema.

Não que eu esteja agorando, como dizia minha avó, mas amor e consciência não são duas coisas que geralmente vão juntas. Ou é uma, ou é outra. E, sendo assim, não há nem que pensar na escolha certa, seu coração, que é fã das idas e vindas, escolhe por você sem que nem perceba o grande penhasco no qual foi jogada sem paraquedas. 
O tempo passou rápido, tanta coisa acontecendo aos máximos e mínimos que nem pude perceber sua presença quando esteve de frente a mim. Me apaixonei no momento errado, cuidando excessivamente das palavras para que não revelasse a todos e a mim mesma que era você. Me apaixonei, e então o que mais tinha a fazer senão me esconder atrás de outro? Toda aquela disritmia de sentimentos transparente a quem quisesse colocar a mão na ferida.

Mas certas coisas cortam. São tão afiadas e imprevisíveis quanto uma faca na mão de um estranho, e como qualquer consequência exposta: a ferida machuca e faz chover, senão nos olhos, na alma. Chuva essa que passa por qualquer fresta, molha o colchão, o piso, as anotações e tudo que pode ser alcançado, inclusive o rosto. E então a obrigação é deixar tudo limpo de novo, enxugar o chão e tentar limpar as paredes daquela cor amarelada, mas a tinta sempre desmancha. Nada fica como antes, e a continuação da história dá-se numa restauração.

Se o mundo inteiro pudesse entender esse nosso tempo de tudo, seria mais fácil e prático. Bastava ir a um depósito, comprar a tinta e eu mesma pintaria aquelas paredes novamente. Mas como de praxe, o destino resolve colocar um carro tocando nossa música enquanto eu passo por aquele caminho, ou então de repente o celular apita e é uma notificação sua no facebook. O seu sobrenome é suficiente para desabar montanhas de auto controle e determinação, e a coincidência sempre coloca um colega da faculdade com ele.

Engraçado como tudo de ruim nos volta contra, e todas as coisas boas conseguem desaparecer num espaço de tempo curto demais para que eu assimile a ausência das conversas noturnas sobre assuntos descartáveis, seu carinho quente e o frio súbito na barriga ao te ver. Caso eu não soubesse que todas as minhas palavras doídas são dramas deixados por uma falta sua, seria capaz de te deixar de lado ou atrás, seguir em frente e respirar novamente sozinha. Mas estamos falando de tempo, e eu me apaixonei. Estou aqui e te espero.

Temos mania de viver da esperança e compaixão pelos outros ou por nós mesmos, chegamos até a sermos vítimas da nossa própria covardia, e de quem mais poderíamos sentir pena? De mim, que sofre com tudo isso e não consegue ver o momento certo para se dar um tapa na cara, ver que já passa a hora e que não há mais chances.

Os dias foram passando, assim como os anos. Nós continuávamos naquele vai e vem, sem saber onde ficar. Estava feliz, apesar do pesares... Mas feliz com a minha vida, não com a nossa. Feliz porque tudo parecia estar dando certo, fui promovida no trabalho, meu livro está quase pronto e nos últimos dias o batom vermelho parecia estar realçando mais a minha pele branca. Você estava o mesmo de sempre, segurando a minha mão como se tudo estivesse bem e discutindo a beleza da sua secretária com seus amigos. Mesmo quando tudo que eu tenha pedido fora o mínimo de respeito por mim.

Cansei. Cansei de usar rasteirinhas e esmalte nude, finalmente a coragem de calçar aquele salto do escuro do closet chegou, colocar azul nas unhas e sair por aí desbravando as ruas dessa cidade pacata com duas ou três amigas ao lado, mostrar que minhas curvas ainda podem ser desejadas por outros olhos. Você se esqueceu delas aos poucos. Me tem na cama e não mais em qualquer cômodo da casa, e quando invento de vestir a última lingerie que comprei você me olha e deita, desculpando cansaço.

 Essa é a minha hora dramática da telenovela, momento em que irei rasgar o peito e jogar sobre você tudo que me aflige. Garanto que você irá se assustar com o que tenho a dizer sobre as coisas e pessoas que perdi durante o martírio desses anos ao seu lado, não que eu tenha me arrependido de súbito, estamos do avesso há algum tempo. Já engoli muito espinho e sequei muitas lágrimas com palha de aço por nós dois, e mesmo com todas aquelas feridas expostas você teve a audácia em dizer que pensou que estávamos bem. É incrível como um amor pode se transformar em um ex-amor tão rapidamente.

Hoje em dia encontro-me nova outra vez, sem as rugas de antes e o sorriso amplo. Tenho respirado ar puro, como aquele da adolescência, sem sentir que todos os seus problemas me sufocassem num só instante. Às vezes, ainda sinto você em mim, e também sinto sua falta... Mas não exatamente falta de você ali comigo, mas sim dos momentos bons que um dia tivemos e que depois de algum tempo nem mesmo existiam mais. Livro publicado, trabalho sucedido e com coragem suficiente para me entregar a outro amor, a vida seguiu em frente. Felizmente.
Estive pensando em nós dois, tentando trazer algo que pudesse me fazer lembrar das coisas terríveis pelas quais passamos. Mas só mais um pretexto para a inspiração chegar, essa falta que vive presente e me deixa encarando o teclado e uma página em branco. Desisti depois de algumas semanas, não foi algo planejado, o meu objetivo era me sentar todos os dias e tentar, ficar recordando as vezes em que me deixou plantada te esperando ou quando a sua ex beijou seu rosto enquanto estava ao seu lado. Hoje está tudo bem, confesso... Aprendemos a amar ou pelo menos nos esforçamos, acontece que minhas estórias sempre foram melancólicas, e essa era uma necessidade minha.

Era, realmente. Era porque eu não tinha você, estava só e a solidão era o meu único assunto. Talvez eu tenha me acostumado a falar sobre a infelicidade, e, nas vezes em que você era um idiota, eu me lembrava e escrevia novamente sobre sentimentos passageiros, mas que permaneciam inertes num pequeno pedaço de memória que se recusava em me deixar. Você sabia como tirá-la de mim, e, às vezes, se dá ao trabalho de me mandar calar a boca e esquecer tudo que um dia não foi nosso.

Falando sobre isso, muita coisa se transformou em nossa nos últimos tempos. Um namoro nosso, uma música nossa, um beijo nosso, amigos nossos. Todo o clichê que julgamos ser diferente porque somos nós, eu e você, e nós gostamos dos mesmos livros e compartilhamos bandas de rock. Lemos a biografia de Kurt Cobain e, de aniversário, me deu a de Renato Russo, mesmo você não gostando de Legião Urbana e eu sendo fã de carteirinha. Estranho, não? Essa história de amar e olhar para o outro mesmo gritando para o mundo que você se ama mais. Naquele momento, não. Ele é mais importante, e talvez isso dure a vida inteira.

E, sinceramente, isso não seria nada ruim, não é verdade?

Já estou perdida em meio termos outra vez, pretendia falar sobre o cotidiano já que ele não me deixava, e então você apareceu nessa bagunça de pensamentos e ideias que só eu mesma pra ter. Passa da meia noite, quase uma da manhã, com essa rotina de estudos não ando dormindo muito bem e o sono acaba me levando com pressa. Vou me despedindo então, nem sei se essa poderia ser considerada uma carta, mas dentre os fatos do dia a dia tive razão em citar você, uma novidade que está sempre presente.
O amor tem destino marcado, sabe a hora de chegar, o dia da semana, o mês e o ano. Só é arrastado, atrasa-se em avisar a abordagem. Mas há sempre as notificações: olhares demasiadamente longos; o pé batendo nervoso o vento; unhas roídas e mais uma série de coisas que nos comunicam que ainda dá para fugir, basta sair de lá sem olhar para trás e desaparecer de qualquer meio social por pelo menos três meses, e cuidado! Se for para ser, tranque as portas.

E mesmo assim, na maioria das vezes, não funciona.

Tranquei. Tranquei todas as portas, fechei tudo que podia... A porta da frente, a porta do quarto, a cabeça, o coração. E você entrou sem quebrar nenhuma fechadura, foi adentrando cada passagem com a chave que só você tinha, da minha eu já nem sabia mais. Fiz questão em sumir e esquecer, deixar de pegar e fazer daquilo um vício de guarda, escondendo de tudo e todos. E agora estamos aqui, você podendo abrir todas as portas e eu sem poder fechá-las.

Era segunda-feira, seis ou sete horas da noite. Havíamos passado todo o final de semana juntos num acampamento, e tudo que trocamos foram alguns cumprimentos. Quase um ano depois você vem me dizer que não pôde deixar de notar minha presença, eu estava lá quieta e tímida, e hoje ri contando como me achava boba e bonita. Você virou para trás com alguns de seus amigos ao lado, a luz refletia olhos azuis quase verdes, e então disse “oi” oferecendo a mão. Como sempre estava concentrada em algo mais, não na cor dos seus olhos ou em como você ficava bem naquela roupa, talvez estivesse pensando no último livro que li ou na próxima estória a escrever. Mas te tratei como empecilho.

De que adiantou? Bastou uma semana e estávamos naquele mesmo lugar, você encostado na parede encanecida, e minha cabeça em seu ombro. Passamos parte da vida acreditando que no namoro vamos fazer diferente, ter tempo para os amigos, não colocar a pessoa sobre um altar de ouro e venerá-la, não fazer regimes loucos para poder usar aquele vestido, não deixar o namorado jogar na sua presença, obriga-lo a ver filmes de romance e esconder todas as fotos da sua infância para que sua mãe não as mostre. Acontece que as coisas seguem a dois, você fala “nós” e ele “vamos”.
Tudo bem. Por que não estaria? O mundo não está nevando ou sofrendo algum tipo de colisão com o sol, então tudo bem. Estou viva, ligeiramente saudável, a cabeça está funcionando bem e ainda penso racionalmente, por assim dizer. O tempo anda um tanto confuso para mim, abro os olhos às dez, mas acordo às onze. Não vejo as horas passando até que o compromisso chegue e estou novamente atrasada.

Confesso que minha tristeza não tem motivo aparente, fico calada por horas sem que sinta necessidade de estar ao lado de alguém ou ter alguém para acabar com esse silêncio. É como se parte de mim fosse completada pelo vago de um nada, e assim me fizesse por satisfeita. A minha carência de palavras já me afeta, consigo um parágrafo quando no máximo; dias atrás, lendo um livro de crônicas, a autora me disse indireta que estava tudo bem. As coisas não precisavam seguir um ciclo de consequências certas em momentos certos para abastar nosso egoísmo, meu egoísmo. Se nosso não seria egoísmo, falando nisso... Alguém está feliz hoje, seria egoísmo ficar feliz por ela ou seria egoísmo ficar feliz com a felicidade alheia?

Sociedade complicada essa... Se guardo aquele livro da minha autora consagrada, é egoísmo porque não compartilhei. Melhor apertar esc e fechar todas essas páginas, abrir um novo documento e fazer minha própria história, onde amar alguém e desejar essa pessoa só para si não seja algo em que eu vá ser julgada ou tachada. Amar sem escrúpulos, rasgando o peito para ver o sangue escorrer num drama de televisão, um romance de gritos e paixão sem vencimento.

Talvez, por fim, eu esteja precisando de algo ou a procura de algo. Já são onze da manhã e o quarto ainda está escuro. Mais um dia de inferno pessoal, presumindo que a rotina não me levará a lugar algum a não ser que para o mesmo de sempre. 
Não sabia do seu nome, do seu rosto ou do que pretendia. Na verdade, nunca soube. Até mesmo quando você gritou todos os seus medos – e seriam aqueles todos eles? Espero imóvel, na dúvida de que vá voltar atrás ou dar um passo à frente.

Esse seu jeito incômodo de dizer que gosta de mim e está disposto a segurar a minha mão traz de volta a batalha interna entre amor e desespero. Meu amor e o seu desespero. Não venha justificar nenhum acaso, desespero sim! E não por mim, por si mesmo. Sem saber onde se encontrar, você tenta me engolir aos poucos, como se eu fosse aquela peça do seu quebra-cabeça que esteve faltando desde seus quinze anos, quando você havia encontrado a peça original e rejeitado por acreditar que o resultado ficaria feio olhando de longe.

E realmente ficou. Te encontro novamente a fragmentos, quase decomposto ao meu ver. Olhos escuros que já não se abrem mais com aquela massa de dentes tão alinhados, e apesar da blusa vermelha desbotada e o jeans velho, tomei minha dose de você. Talvez não tenha tido o mesmo efeito que um medicamento a base de morfina teria – como no início –, senti naquele momento que eu quem fui a sua cura quando te vi olhar surpreso em minha direção. E, veja bem, nós estávamos no metrô e aquela troca de olhares foi o bastante para que eu me empenhasse novamente a te deixar na gaveta de diários do ensino médio, na qual só meus futuros netos abririam para não esquecer que a avó um dia foi jovem.

Por meses recusei que seu nome sequer fosse pronunciado nos meus sonhos, evitava as ruas vazias e, quando sem opção, voltava para o meu apartamento. Pequeno, velho e com a estante coberta de poeira; e, mesmo assim, o canto mais confortável que o mundo poderia me oferecer a qualquer época do ano.

Sua figura havia sido implacável em certos parques da cidade, principalmente naquela pequena praça sem sombra e ao meio dia em que havíamos compartilhado carícias a suar ainda mais calorias. Mas, não se engane, eu escrevo esse texto esquecendo. Não me esquecendo de você ou dos vários momentos em que acreditei que me amava sem que me dissesse as três palavras, não... Eu apenas me esqueço de que preciso lembrar todos os dias que você não está presente ou que sinto a fagulha de um amor que ainda sofre de esperanças.
Você pediu e eu deixei, ou não tive escolha senão dizer “vá”.

O gosto salgado da dor deixava minha garganta seca, um nó prendia até mesmo minha respiração, lá estava eu... Caindo do salto, jogada ao chão sem fazer questão de me levantar. Por alguma razão minha perna doía, talvez pudesse ser o chão frio que meus pés nus agora tocavam, talvez eu tenha me apoiado naquela perna quando caíra de tão alto.

Naquela manhã havia caminhado pelo parque como sempre fizera, uma rotina inflexível, passava na padaria, comprava pão francês e voltava para casa. Mas não me referiria àquela manhã caso meu celular não houvesse apitado quieto no meu bolso com uma mensagem sua, pedia que fosse ao meu apartamento a qualquer momento, porém a urgência de um agora estava clara em cada espaçamento de palavras digitadas rápidas e sem muita preferência de uma boa ortografia. Agora. Só agora percebo que você nunca foi admirador de ‘agoras’, gostava de venerar seu próprio tempo, sem pressas e enganando os compromissos, assim como as responsabilidades. Agora de presente, agora de já. Qualquer que seja, você não está em mais nenhum tempo além do passado.

Era dona de desafios, existia em mim uma coragem absurda que não esperava e me levava com ela. Não precisava muito para que eu partisse, aliás, bastava pouco para que eu ficasse. Já não sei mais quem disse adeus, fora eu? Era amor, era também orgulho. E havíamos deixado que ele crescesse mais que o que sentíamos, se um de nós disse ‘fim’, então mesmo que a vontade de voltar fosse incurável o orgulho não deixaria que ficássemos juntos novamente. Aquele seria o fim, pois só foi dito uma única vez. De todos os nossos tchaus, um adeus nunca fora pronunciado.

Quanto tempo faz desde então? Pergunto-me se conseguiu ter a paz de uma noite de sono, ou, simplesmente, ter paz a qualquer hora do dia para fazer café e ler um livro. Estive deitada por dois dias, pensei em três formas de morrer para cada dia do ano, mas percebi que já morria, não precisava de sangue ou prédios. Minha perna continuava a doer, e agora tinha medo do piso, nem mesmo a fome me tirara do quarto. Sei que começava a preocupar quem se preocupava comigo, apesar disso não sabia como agir senão continuar deitada esperando que o tempo me curasse. Ou que você, por alguma razão ou ventura, aparecesse para me salvar de uma vida sentindo sua falta. Sem que precisasse de segundas opções. Eu o dizia que minha cura não era você, mas que essa só poderia ser encontrada num abraço seu.

Você se esqueceu, ou se esqueceu de lembrar.

As lágrimas haviam cessado após um dia e uma noite de choro constante, os olhos ainda marcados vagavam sem que vissem um só enfeite do quarto, apenas olhando as lembranças que ainda jorravam na minha frente, essas não haviam parado por um só instante. Contínuas e doridas. Havia tentado ouvir Pouca Vogal e Esteban, mas tudo parecia estar conjunto com o que sofria, e calada fechava o notebook implorando por silêncio ou que o silêncio gritasse.

Era fim de domingo, e meu ego estava ferido, uma monotonia que em mim não era habitual. Sabia que amanhã seria segunda e tanto a dor como a angústia estariam presentes por semanas ou anos até que você fosse embora de mim, mas também estava ciente de que o tempo estava me deixando sozinha, precisava de alguns passos para então voar com o vento. E talvez, num dia desses, eu volte a senti-lo. 
Você brincava com meus dedos naquela noite quente de sábado, encaixava sua mão na minha como quem faz promessas em silêncio, abraçava-as quieta, aceitando todo e qualquer toque singelo da sua alma sobre mim. Eram tempos de dúvidas, mas não podia negar todos os meus sentimentos expostos a você naquele quarto escuro, minha respiração baixa cheia de temores e suspeitas, mal me movimentava em seus braços – receava que pudesse arruinar a calmaria de estar com você junto ao silêncio.

“Em que você está pensando?”

Em que pensava afinal? O barulho constante dentro de mim não me deixa ouvir o que penso, apenas deleita-me com memórias inexistentes. Sabia tão-somente que pensava no início e fim, como duas grandezas e, caso não seja audacioso, dois extremos poderiam estar desde o início da manhã ao fim da noite. Início e fim. O ‘e’ era o meio-termo, nós dois, quem sabe. A vida se dá início quando se é gerada em outro ser, o fim está na morte. Mas a morte pode estar presente até que encontre alguém que te traga vida, então fim e início. É preciso ordem?

“Nada.”

“Você ficou calada. Tem certeza?”

Mesmo no silêncio, você sabia reconhecer meus medos. E, mais uma vez, me escondia por temer o domínio que tinha sobre mim. Era um lance de consequências, me recuaria e, por conseguinte, você também. Decidi então, deitada ao seu lado envolta em você, que não deveria mais. Apesar de que aquela era uma promessa vaga, não sabia do futuro, o que traria consigo, afinal ele também é um arremesso de sequelas. “Não.”

“O que foi?”

Sua voz soava clara, tão segura e certa de si que me deixava mergulhar em suas certezas. Fora então que pude notar, o barulho da minha mente havia se sobressaído novamente. Fraquezas e covardias tapando meus ouvidos e olhos, privando de mim uma verdadeira preocupação. “Ninguém acredita que é para sempre.” Lá estava, a criança inspirando controvérsias e eufemismos. Desejando um para sempre e nada além de amor para sobreviver na essência que a vida traz.

“Você acredita?”

“Sim.”

Uma certeza, talvez a única que podia ter naqueles tempos. O amor. Nem mesmo a morte era uma para mim, apenas um substantivo ou adjetivo? Sabe-se lá.

“Então é.”

Uma certeza nossa, talvez a única.
O papel está em branco, tudo parece errado e certo o suficiente para que a inspiração não venha. A nostalgia de The Temper Trap não faz tanta diferença, o suspiro vem, as mãos preparam, mas a alma não se sente adequada. Culpa do dia que não amanheceu triste, não choveu e não fez o frio de inverno que sempre é acompanhado de uma caneca de café durante as madrugadas acordadas onde as palavras fluem com aquela facilidade desconhecida nos dias de verão.

O ar condicionado soava bem às duas da manhã, fechar todas as janelas e jogar o cobertor por cima para enganar a mente, a teimosia constante dos pensamentos que enlouquecem sem que eu saiba, sem que eu me importe com a explosão e a deficiência na fala. O caos incomoda nesses dias, o calor parece aumentar pelas horas que se passam, horas que se arrastam, desprezam a ideia de ter pressa com a vida. Pressa de viver.

O sono se perdeu em meio ao emaranhado de sentimentos daquela falta de vento, meus olhos escuros refletiam as luzes vindas de fora da janela estreita do apartamento, nada parecia mais encantador que a parede descascada e suja sobreposta à frente. A angústia de uma palavra errada sempre voltava à meia noite, o coração golpeava meu peito enquanto meu psicológico enganava todas as minhas funções, as mãos tremiam, as pernas já não possuíam mais força e o estômago parecia ser rasgado por borboletas sanguinárias. A manhã, esperança dos afogados, não trazia dádivas... O cotidiano consumia e me fazia morta por cinco dias, um mês, um ano, quase uma vida até que no fim eu queira ver o crepúsculo sem procurar entender por que ele acontece. Ou que a vida passe sem que busque soluções para o amor.

Joguei o cobertor de lado quando a terceira gota de suor escorreu pela minha face, tentei obrigar o sono a chegar, mas a testa franzida ostentava a minha preocupação. Aquela ansiedade por mudanças e as tentativas falhas em consegui-las me faziam abraçar o travesseiro junto ao peito, apertar o lençol como quem quer rasgá-lo e demandar que eu tenha poder sobre o meu corpo.Sobre o que eu sinto. E não que eu esteja sob o domínio de um simples querer, esperar em toda paixão que a mentira não me iluda e que a verdade não desacredite de mim.

Hoje memórias de um amor me vieram à cabeça, dos rodopios e risadas exageradas sem uma razão particular, uma noite debaixo do céu podendo desafiar as estrelas sem que haja limites nas escolhas. Então lembrei que meu cérebro era seu comparsa e gostava de idealizar a nossa falta de paixão, ou seu descontentamento ao apoiar a mão na minha cintura.

O dia chegava.

Alguém amanhecia dizendo o quão belo o sol se mostrava pela aurora, eu planejava continuar o resto da manhã na cama, talvez a tarde criasse coragem para enfrentar o mundo sem sentir o corpo tremendo a cada passo pela avenida principal. Quem sabe um pouco de comédia ou terror durante a tarde me fizesse sentir novamente, esperava poder abrir os braços para a dor sem medo de tê-la como herdeira principal.


Durante aquelas férias de verão a porta se abriu apenas para receber a entrega do supermercado.
A foto rasgada caía sobre o chão com o peso de um amor, exibindo dores que rugiam na promessa de serem passageiras. Duas bocas se cruzavam no fragmento distorcido no canto mais longínquo do quarto, o único pedaço de papel que não se rasgara por completo na fúria de duas mãos e um ciclo: ira, tristeza e decepção.

“Como vai?”

O silêncio mais alto era dentro, um purgatório a cada palavra e o labirinto na saída. A noite amanhecia e o dia padecia em escuridão, a ansiedade transformada em sono prolongada de inverno a verão, de outono a primavera levava idades consigo. E durante esses dias, o sorriso doía ao aparecer. A dor resumiu calor em aflição, às vezes, até mesmo a falta de chuva fazia-me chorar. Ao menos a natureza precisava compartilhar um pouco de angústia, ser companhia naquela melancolia infortuna que apenas a nostalgia parecia enganar. “Não vou.”

O tempo havia parado, os pés ainda colados no mesmo piso e o corpo divulgando solidão. Os livros de cabeceira todos lidos e relidos, alguns romances queimados, outros jogados aos cantos. Começava a manhã ouvindo Maroon 5, mas logo pela tarde Frank Sinatra ecoava quieto na sala, a voz robusta e firme lembrava as noites em que você, tão impaciente, me puxava pra dançar sem motivos distintos. Aquele fora o primeiro sorriso após a sua partida, pensava em você, e aquele lapso não passava de um passatempo de águas, que desceram quando notei o grande equívoco – só você poderia me curar.

Corria todas as manhãs, quando chegava ao apartamento esperava o porteiro dizer que você passou por lá, por muito tempo não consegui notar a aflição nos olhos quando ele me balançava a cabeça por já estar cansado das más notícias, ou das minhas más considerações. O celular, sem chamadas ou mensagens, desligava quando não tinha uso. O seu silêncio me agredia. E, principalmente, a facilidade com que se esqueceu de tudo que ainda me fazia bem, a sua liberdade em deixar que padecesse a nossa história.

“Indo.”

A vida seguiu após algum tempo. O tempo não parou pra que eu abrisse a porta. Talvez alguns meses ou um ano, mas o tempo não foi perdido, uma vida foi recuperada.
Duas bocas se cruzavam no fragmento distorcido no canto mais longínquo do quarto, o único pedaço de papel que não se rasgara por completo na fúria de duas mãos e um ciclo: ira, tristeza, decepção e ressurgimento. “Em frente.”